SOLIDARIEDADE É SERVIÇO E NÃO IDEOLOGIA: Ela fixa o olhar no outro.


O terceiro capítulo da Encíclica “Fratelli Tutti” convida o(a) leitor(a) a lançar um olhar atento e crítico sobre a realidade da sociedade contemporânea. E, visto com imparcialidade, embora também com realismo. Percebe-se, mais do que nunca, a urgência a uma “ruptura de paradigma”, pois se faz necessário desenvolver uma “cultura da solidariedade” em vista de um mundo novo, fraterno, inclusivo e sustentável.




Por quê?


“...[somente] o amor é que cria vínculos e amplia a existência, quando arranca a pessoa de si mesma para o outro”.


Portanto, somos uma sociedade sadia e feliz na medida em que há abertura aos outros, a final tal postura é que nos levará a crescer e enriquecer pessoal e comunitariamente, bem como nos ajudará a lidar com o conjunto das relações interpessoais. Entretanto é bom frisar que “a estatura espiritual de uma vida humana é medida pelo amor”, pois não há outro caminho por onde se possa andar a não ser pelo amor, principalmente a quem se declara seguidor de Jesus Cristo.


Por outro lado, “...há pessoas que creem que pensam que sua grandeza está na imposição de suas ideologias aos outros, ou na defesa violenta da verdade, ou em grandes demonstrações de força”. (FT, n.92). Uma polaridade tem-se manifestado de forma grotesca e ridícula no qual se engavetou a sociedade hodierna e cada vez mais vem perdendo força ante os desafios a serem resolvidos. Portanto, fica claro que: “...o amor implica algo mais do que uma série de ações benéficas”. (FT, n. 94).


Em contrapartida, a Encíclica “Fratelli Tutti” nos chama a atenção para que possamos repensar nossas relações interpessoais, embora, e, sobretudo, sempre a partir da máxima do Evangelho, ou seja, o “Amor”. Não há como sonhar com um mundo novo, inclusivo e fraterno senão partindo dessa premissa.



Por quê?


“...ninguém amadurece nem alcança a plenitude isolando-se. Por sua própria dinâmica, o amor exige uma progressiva abertura, uma maior capacidade de acolher os outros [...] e é uma aventura que faz convergir todas as periferias rumo a um sentido pleno de mútua pertença”.(FT,95). “Todos vós sois irmãos”. (Mt 23,8).


A lógica, aliás, muito presente no atual contexto cultural parece estar indo no sentido contrário, o que então, torna impossível retomar um crescimento plausível. Afinal, em pleno século XXI, é escandalosa a constituição de sociedades fechadas, racistas e rançosas, aliás, que não deixa de ser um “vírus que muda facilmente e, em vez de desaparecer, dissimula-se, e está sempre à espreita”. (FT, n.97). É interessante a observação que a Encíclica “Fratelli Tutti” faz referindo-se ao racismo, quando a mesma chama de “exilados ocultos” que são tratados como corpos estranhos à sociedade.


Outro tema muito candente é quando ela trata da questão dos idosos. É um fenômeno triste e lamentável porque são vistos como um peso à sociedade. Ora, se há um desejo de criar uma “amizade social” e “universal” é necessário, sem margem de dúvida, ter uma visão integrativa, aberta e inclusiva.




Por quê?


“...quem olha para sua gente com desprezo, estabelece na própria sociedade categorias de primeira e segunda classe, de pessoas com mais ou menos dignidade e direitos. Desse modo, nega que haja espaço para todos. (FT, n.99).




E esta segue:


“[infelizmente]...há um modelo de globalização que “visa conscientemente uma uniformidade unidimensional e procura eliminar todas as diferenças e as tradições em uma busca superficial de unidade”.





O FUTURO NÃO É MONOCROMÁTICO (1).


É preciso estar atento a uma tendência muito presente e sutil que se articula na subjacência dessa sociedade globalizada e que nem sempre é percebida pela maioria do tecido social, ou seja, a redução da existência humana a uma monocultura, levando assim, as pessoas a abortar as diferentes cores das diversas culturas, mormente as autóctones. Ora, não deixa de ser um reducionismo grosseiro, maldoso e pensado por pessoas cujo perfil retrata no seu bojo egoísmo e ânsia de poder para dominar, e isso, sem dúvida, não coaduna com o bem comum e a igualdade social, embora isso não signifique igualitarismo nem reducionismos padronizados, como se o ser humano fosse criado em série. Tal reducionismo elimina as belezas das etnias, das culturas e dos costumes. Caro leitor! É bom frisar que todo reducionismo é uma pobreza que deve ser evitada, pois a família humana é rica em sua variedade. Ora, a ideologia da globalização quer sempre padronizar, e, isso, “destrói a riqueza e a singularidade de cada pessoa e de cada povo”.


É bom ter consciência que não fomos criados em série, mas cada pessoa é única e irrepetível. Daí infere-se que “...nossa família humana precisa aprender a viver conjuntamente, em harmonia e paz, sem necessidade de sermos todos iguais”, [unidos na diferença]. (FT, n.100).





O LUGAR DA ECONOMIA, DO MERCADO E DA LIVRE INICIATIVA A PARTIR DA PREMISSA DO AMOR E DA SOLIDARIEDADE.


Em primeiro lugar é necessário frisar que a igualdade não se alcança de forma abstrata, ou seja, “todos os seres humanos são iguais”, mas deve ser fruto de um “cultivo consciente e pedagógico da fraternidade”. A Encíclica com isso quer advertir todos aqueles que egoisticamente se fecham em grupos herméticos esquecendo-se dos demais do tecido social. Por quê? “...o individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda humanidade”. (FT, n.105).



E o texto segue:


“...o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar a rédea solta às próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum”.


Ora, é preciso ter consciência de que esse amor universal sempre irá promover todas as pessoas e desenvolver o imaginário de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância. Esse imaginário é que irá mudar o perfil e o contexto de toda e qualquer estrutura política socioeconômica das nações. Portanto, isso exige um “ver” amplo, pois se alguém nasceu em algum lugar com menos recurso, não “justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente”. (op cit EG n.190 in Fratelli Tutti, 106).



Portanto, urge gritar em alto e bom tom que: “...todo ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum país pode negar-lhe esse direito fundamental. [portanto]Todos possuem, mesmo quem é pouco eficiente, porque nasceu ou cresceu com limitações. [...] isso não diminui a sua dignidade imensa de pessoa humana, que se baseia não nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda esse princípio elementar, não há futuro para a fraternidade, nem para a sobrevivência da humanidade”. (FT, n.107).



Daí o alerta da Fratelli Tutti: “...se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficiência, não haverá lugar para tais pessoas e a fraternidade não passará de uma palavra romântica”. (FT, 109). Ora, de acordo com a Encíclica significa que a proclamação de liberdade econômica ainda não quer dizer nada em termos de liberdade, democracia ou fraternidade, pois há um esvaziamento do autêntico sentido destes termos. Em outras palavras significa que é preciso uma postura da parte dos dirigentes de uma real preocupação em garantir “...que todos sejam acompanhados no percurso de sua vida esses direitos.


Em contrapartida é visível que hoje há uma “...tendência para uma reivindicação crescente de direitos individuais, [mas que por detrás] “...esconde uma concepção de pessoa humana separada de todo o contexto social antropológico”. Por quê? “...se o direito de cada um não está harmonicamente ordenado para o bem maior, acaba por conceber-se sem limitações e, por conseguinte, torna-se fonte de conflito e violência”. (FT, 111).




PRECISA-SE REPENSAR A FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE


A Encíclica, para justificar a visão de propriedade privada, lança mão de um, dentre tantos, dos Santos Padres da Igreja primitiva, quando este diz: “...não fazer os pobres participar dos próprios bens é roubar e tirar-lhes a vida: não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos”. (op cit, São Basílio in Fratelli Tutti, n.119, p.65). Por outro, São Gregório Magno também afirma: “...quando damos aos indigentes o que lhes é necessário, não oferecemos o que é nosso; limitamo-nos a restituir o que lhes pertence”. (ibidem)


A Fratelli Tutti, citando as orientações de João Paulo II ao comentar a Encíclica Centisimus Annus, n.31 diz: “...Deus deu a terra a todo o gênero humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém”. Nesse sentido é que a Laudato Si, n.93 retoma o pensamento e repisa o princípio de que: “...a tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito de propriedade privada, [mas] salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada”. E assim, isso quer significar que “...o princípio do uso comum dos bens criados para todos é o “primeiro de toda ordem ético-social”. (cf. Laborem Exercens, 19), e este é um direito Natural e prioritário.



Portanto, “...todos os outros direitos sobre os bens necessários, incluindo a propriedade privada, segundo São Paulo VI, não deve impedir, mas, pelo contrário, [deverá] facilitar a realização”. (cf. Populorum Progressio, n.22). E finalmente, a Encíclica Fratelli Tutti, frisa que: “...o direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens”. Sempre tendo em vista o bom funcionamento da sociedade. O grande problema é justamente, quando os direitos secundários se sobrepõem aos prioritários e primordiais.



COMO FICA A ATIVIDADE DOS EMPRESÁRIOS DIANTE DE TUDO ISSO?


A Encíclica Fratelli Tutti deixa bem claro que: “...a atividade dos empresários “é uma nobre vocação orientada para produzir riqueza e melhorar o mundo para todos.(op cit Laudato S’i, n.129 in Fratelli Tutti, n.121.



Por quê?


“...Deus nos incita, esperando que desenvolvamos as capacidades que Ele nos deu, bem como as potencialidades de que encheu o universo”. Portanto, “...cada homem é chamado a promover o seu próprio desenvolvimento” (cf. Populorum Progressio (PP), n.15 e Cáritas in Veritate,(CV),n.16). O que na prática isso significa? “...a inclusão e a implementação das capacidades econômicas e tecnológicas para fazer crescer os bens e aumentar a riqueza”. Embora, e por outro lado, “...devem orientar-se claramente para o desenvolvimento das outras pessoas e para a superação da miséria, especialmente pela criação de oportunidades de trabalho diversificadas. De maneira que: “...o direito à propriedade privada é sempre acompanhado do princípio mais importante e antecedente da subordinação de toda propriedade privada ao destino universal dos bens da terra, e consequentemente, o direito de todos ao seu uso”. (cf. op cit Laudato SI’, n.93 e Evangelium Gaudium, (EG) n. 189-190).


É preciso criar uma consciência de que os direitos devem ultrapassar as fronteiras dos países em vista do bem de todo o gênero humano. Por quê? “...o direito de alguns à liberdade de empresa ou de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos e da dignidade dos pobres; nem acima do respeito pelo ambiente, pois “quem possui uma parte é apenas para administrar em benefício de todos”. (op cit Laudato SI’,n.95 in Fratelli Tutti, n.122).


A Fratelli Tutti nos desafia a algo novo, ou seja, a “...sonhar e pensar em uma humanidade diferente. É possível desejar um planeta que garanta terra, teto e trabalho para todos. Porque esse é o verdadeiro caminho da paz, e não a estratégia insensata e míope de semear medo e desconfiança perante ameaças externas. [Portanto], a paz real e duradoura é possível só “a partir de uma ética global de solidariedade e cooperação a serviço de um futuro modelado pela interdependência e corresponsabilidade na família humana inteira”. (FT, n.137).


Caro leitor! Trago hoje nesse texto do terceiro capítulo da Encíclica Fratelli Tutti do papa Francisco, com resumo e pequenos comentários, no intuito de partilhar com todos os amigos a riqueza dessa Encíclica. A mesma não se destinar apenas aos católicos, e sim, a todos os homens e mulheres de boa vontade que tencionam colaborar para uma mudança de paradigma em vista de um mundo novo, fraterno e inclusivo.



Sinta-se desafiado ao novo!