O ROMPIMENTO DO TRABALHO REGULAR E PERMANENTE: É a lógica da ideologia da globalização


O texto desta semana pretende continuar a refletir sobre o pensamento que está na subjacência da ideologia do sistema de economia neoliberal e/ou neuroliberal. Na prática dessa visão de economia fica explícita de que não há nenhum interesse em promover um mundo de justiça, solidariedade como também de defender a premissa de qualquer inclusão do bem comum de todo o gênero humano, e sim, a exploração impiedosa em favor de poucos.


Observe caro leitor:

“...a pressão, hoje, é romper os hábitos do trabalho regular, permanente, cronometrado e fixo – o que mais significaria o lema do “trabalho flexível”? (BAUMAN, Zygmunt – Globalização – As consequências humanas – Zahar – 1999 p.120). E segue:

“...a estratégia recomendada é fazer os trabalhadores esquecerem, não aprenderem , o que pretendia ensinar-lhes a ética do trabalho nos dias dourados da indústria moderna.

Qualquer ser humano de sã consciência e com uma visão crítica em se tratando de construir uma nova sociedade percebe que os objetivos desta pandemia economicista não possui em seus princípios sequer algo para oferecer e contribuir na mudança das estruturas claramente desumanas, individualistas e sem nenhuma perspectiva para o novo, mas insistindo no anacronismo que exclui 80% da população mundial para a pobreza e consequentemente para fome. O sociólogo Zigmunt Baumandestaca ainda algo mais chocante quando afirma: “...os trabalhadores [dentro desta lógica] devem desaprender a dedicação ao trabalho duramente conquistado ao local de trabalho, assim [como] o envolvimento pessoal no conforto desse ambiente”.


Caro leitor!

O artigo próximo passado que publiquei de 20/10/2020 com o título: “Desaceleração da economia: o grito cósmico para nova economia” tem apontado como é explícito o esvaziamento da função do Estado de Direito ao ser reduzido para punir e reprimir tudo o que fosse contra os interesses do capital financeiro e das megaempresas. É um fenômeno preocupante e do ponto de vista ético escancara o inusitado, ou seja, “...aqueles que punimos são em larga medida pessoas pobres e extremamente estigmatizadas que precisam mais de assistência do que punição”. (ibidem-Bauman, p.122).

Aqueles que deveriam estar na prisão estão soltos e conseguem com facilidade. Tristemente cresce em quase todos os países o número de pessoas na prisão. O que subjaz a essa realidade? Sem margem de dúvida são as consequências dessa ideologia da globalização que desenraiza as pessoas de seu ambiente para jogá-las na “nebulosa e lamacenta terra de ninguém”, onde todos tendo perdido sua identidade ficam sem o “chão da vida”, de sua cultura autóctone e, assim, desnorteadas partem para a violência.

A verdade é que essa cultura desumaniza, ao reduzir as diversidades culturais para uma monocultura alienada e empobrecida onde o homem não se reconhece mais um ser humano feito à “imagem e semelhança do Criador” (Gn 1,27), mas uma coisa entre tantas outras coisas. O processo de reificação é uma tragédia pessoal e social. Por outro lado, o Construto político socioeconômico nas mãos de um número insignificativo de poderosos que inescrupulosamente se esbaldam nas benesses da tecnologia trata o resto como resto.

Bauman em seu livro “O mal-estar da pós-modernidade” publicado pela Ed. Zahar – 1998 é enfático ao afirmar:


“...uma causa evidente do aumento do número de prisioneiros é a espetacular promoção de prisioneiros classificados na rubrica da “lei e ordem”, na panóplia= (É um termo de natureza militar usado na Idade Média, ou seja, uma armadura completa de cavaleiro europeu) de preocupações públicas, particularmente quando essas difusas preocupações se refletem nas interpretações doutas e autorizadas dos males sociais e nos programas políticos que prometem curá-los”.


Curiosamente o que se percebe no hoje da cultura contemporânea, são sentimentos de medo, ansiedade, insegurança e por outro, o tecido social ante estes paradoxos da vida busca, aceita e se submete nesse emaranhado de “desgovernos e pseudos líderes”, “lei e ordem”, embora seja uma situação provocada pela desconfiguração diluída da Conjuntura política socioeconômica cujo poder está em mãos da minoria rica e das megaempresas que sempre é fruto desta ideologia da globalização cuja característica é o imaginário do sem fronteiras e acima dos Estados Nações. O processo é tão bem costurado que a maioria das populações não se dá conta desta realidade escancarada e eivada de um espírito imoral e, pior que agem sem nenhum escrúpulo.


Observe caro leitor! Por detrás de tudo segundo Bauman, aparece a escassez de opções livres de riscos, ou seja, a crescente falta de clareza das regras do jogo como incerta e a maioria dos movimentos e suas consequências como ameaças à segurança. Essa questão da segurança tem um fim ilusório. Por quê? “...o efeito geral é a autopropulsão do medo. A preocupação com a segurança pessoal, inflada e sobrecarregada de sentidos para além de sua capacidade em função dos tributários de insegurança e incerteza psicológica, eleva-se ainda acima de todos os outros medos articulados, lançando sombra ainda mais acentuada sobre todas as outras razões de ansiedade”. (ibidem BAUMAN, p.127).


Dentro deste quadro, sem dúvida, os governos lavam as mãos. Por quê? “...ninguém os acusaria também de indolência e de não fazer nada relevante pelas ansiedades humanas ao ver diariamente documentários, dramas, docudramas [é um gênero de realidade e ficção que vem se popularizando na televisão em todo o mundo], dramas cuidadosamente encenados sob o disfarce de documentários fechaduras “high-tech”= [alta tecnologia que as empresas têm para instalar] como alarmes contra assalto e roubo de carros, tortura de criminosos com choques curtos e fortes e os corajosos agentes e detetives arriscando as vidas para que o restante das pessoas possam dormir em paz”.


Assim se explica a construção de novas prisões, novos estatutos que multiplicam as infrações puníveis com prisão, aumento das penas e etc. Ora, isso aumenta a popularidade dos governos transmitindo ao público a ideia de severidade e que estão fazendo algo pela garantia e certeza para a população.


Caro leitor! Na subjacência desse imaginário o que as “forças do mercado” querem da parte dos governos é que passem ao tecido social a ideia de um “ambiente seguro”, e sem dúvida, exigindo dos governos qualquer tipo de restrição. Bauman denuncia com determinação que “...no mundo das finanças globais, os governos detém pouco mais que o papel dos policiais de serviço, varrendo os mendigos, perturbadores e ladrões de rua, e a firmeza dos muros das prisões assomam entre os principais fatores de “confiança dos investidores” e, portanto, entre os dados principais considerados quando são tomadas decisões de investir ou de retirar investimento”. (ibidem p.128). Mas, note-se que esse sistema é muito sutil e difícil de se desvencilhar sem possuir uma visão histórica, filosófica e crítica das sutilezas a que subjazem as diversas ideologias em jogo, mormente todos os sistemas até então conhecidos, pois é o capital nômade que está por trás de tudo.

Em contrapartida o que deixa qualquer pensador sensato e crítico pasmo, é que “o sistema penal ataca a ‘base’ e não o ‘topo’ da sociedade”.


Pergunta-se: Como significativa parcela da classe média não se dá conta daquilo que defendem? Afinal “...roubar os recursos de nações inteiras é chamado de “promoção do livre comércio”, roubar famílias e comunidades inteiras de seu meio de subsistência é chamado “enxugamento” ou simplesmente “racionalização”. (ibidem Bauman, p.131). O estranho em tudo isso é que nunca é incluído entre os atos criminosos passíveis de punição os crimes monstruosos “dos colarinhos brancos”.



A ENCÍCLICA “FRATELLI TUTTI” TENTA ALERTAR E ABRIR OS OLHOS PARA ALGO NOVO


Em continuidade ao primeiro capítulo da “Fratelli Tutti” cujo título é As sombras dum mundo fechado volta-se às observações que são muito pertinentes para analisar mais pontos que a mesma nos coloca para refletir, aliás, realidade que, e infelizmente, também muitos católicos não querem e/ou se fazem de cegos, surdos e mudos, pois se omitem ver uma realidade de um mundo que os alienou e tornou-os obsecados por ideologias cruéis e que cegam. No entanto, a Encíclica publicada por Francisco papa, como um pai, não impõe, mas convida a todos para parar, “tomar distância” para que com imparcialidade possam abrir-se a uma nova forma de ver que há possibilidade para uma economia alternativa que favoreça o bem comum de todo o gênero humano, e não apenas de alguns privilegiados. Daí é que neste texto tentam-se expor mais pontos abordados pela “FRATELLI TUTTI” para se pensar e avaliar.


1. A filosofia que está no fundo de tudo é que a melhor maneira de dominar e avançar sem entraves são semear o desânimo, a desconfiança, mesmo que por detrás pareça ser a defesa de alguns valores.


2. Nega-se ao outro o direito de existir e pensar e a estratégia é ridicularizar o diferente e reprimir.


3. A política deixou de ser um debate saudável sobre projetos em longo prazo para o desenvolvimento do bem comum e se limitando a receitas efêmeras de marketing e o recurso mais eficaz está na destruição do outro. Assim emerge o jogo de desqualificações.


4. Na luta por interesses nos coloca todos contra todos, onde vencer é sinônimo de destruir. Lamentavelmente aumentam as distâncias entre nós.


5. Cuidar do mundo que nos rodeia significa cuidar de nós mesmos. Ora, isso parece não interessar aos poderes econômicos, pois querem ganhos rápidos.


6. Tristemente partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício duma seleção do setor humano que desejam viver sem limites. Nesse aspecto ficam explícitos que as pessoas não são mais valores primários, especialmente os pobres, deficientes, os nascituros, os idosos. O desperdício no alimento há insensibilidade.


7. A falta de filhos provoca um envelhecimento da população, juntamente com o abandono dos idosos na total solidão. Por outro, o objeto de descarte não são apenas os alimentos ou os bens supérfluos, mas muitas vezes os próprios seres humanos cruelmente descartados, o isolamento dos idosos e o abandono à responsabilidade de outros sem o acompanhamento da família e isto mutila e empobrece as relações familiares. Esta realidade priva os jovens de contato com suas raízes e com uma sabedoria que a juventude, sozinha não pode alcançar.


8. A redução dos custos laborais provoca desemprego, o descarte que assume formas abjetas que se dava por superadas como o racismo volta com tudo.


9. Outros aspectos a ser avaliados: Há regras econômicas que foram eficazes para o crescimento, mas não de igual modo para o desenvolvimento humano integral. Aumentou a riqueza, mas sem equidade, e, assim “nasceram novas pobrezas”. E ironicamente quando se fala que o mundo moderno reduziu a pobreza, fazem-no medindo-a com critérios de outros tempos não comparáveis á realidade atual. A pobreza sempre se analisa e compreende no contexto das possibilidades reais dum momento histórico concreto. Finalmente é interessante observar o seguinte:


“...os 40% mais pobres perderam 32% da renda com a pandemia, enquanto a queda para os mais ricos foi de 3%. A conclusão é fruto de um estudo feito pela PUCRS e pelo Observatório das Metrópolis e do Observatório da Dívida Social na América Latina que comparou dados do segundo trimestre de 2020 com o mesmo período do ano passado em regiões metropolitanas. Segundo os pesquisadores o aumento da desigualdade se deve ao fato de que a camada mais pobre em geral trabalha na informalidade o que a torna mais exposta aos efeitos da crise” (fonte: http/Linkedin/Dv T Ag 9 P. (Cláudia Gasparini).


Portanto, é muito importante que a sociedade comece a pensar com mais objetividade e menos emoção os problemas da atualidade não para ter pena, e, sim para buscar soluções alternativas, com a finalidade de sanar o planeta terra da vergonhosa desigualdade.


É bom pensar!


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