O DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL AUTÊNTICO SEMPRE SUPÕE DA PESSOA SAÚDE PSICOLÓGICA


Ao se abordar a questão de um crescimento espiritual que retrate maturidade e equilíbrio certamente o mesmo deve levar em conta um psiquismo sadio, embora isso não queira significar que o sujeito tenha um perfil perfeito e sem defeito, ao contrário necessita ter a preocupação de focar em elementos que sejam básicos. Em outras palavras significa ter uma personalidade relativamente bem estruturada para que em diferentes momentos de sua vida possa evitar e/ou contornar possíveis disfunções psicossomáticas que possa conduzir a fanatismos, fundamentalismos bem como a radicalismos, entretanto para isso se supõe trabalhar o próprio “eu” para atingir a meta.



É sempre prudente e sábio, principalmente da parte de quem tem a responsabilidade e missão de orientar consciências, através da direção espiritual ter em conta esta preocupação para com a pessoa do qual é responsável em orientá-la ao crescimento maduro de sua espiritualidade. Afinal é bom frisar que a “virtude está no meio”. Se da parte do orientador não levar em consideração a maturidade do psiquismo do orientando, o mesmo acaba prestando um desserviço à pessoa que busca orientação com um correto acompanhamento no crescimento espiritual seja pessoal e/ou comunitário.



Partindo desse pressuposto torna-se necessário distinguir temas como a “autoestima” da “estima do self”. Por um lado quando se aborda a questão da “autoestima”, cumpre dizer que a mesma se ocupa de imagens, olhares que exprimem os juízos de valor que a pessoa faz sobre si mesma, por outro, quando se aborda a estima do “self” trata-se da descoberta da própria alma e o cuidado para com ela. Ora, é mister saber que a autoestima sempre é de ordem psicológica e voluntária, enquanto o self é de natureza espiritual.



Observe que:


“...a autoestima ocupa-se com o ego e de sua sobrevivência física, emocional, intelectual e social; a estima do self procura encontrar o ser espiritual, isto é, a alma, para assim se deixar conduzir por ela e assim atingir o pleno desenvolvimento”. (MONBOURQUETTE, Jean – Da autoestima à individuação – Ed/Paulinas – 2008 p.102).


É importante chamar a atenção ao leitor a situações onde muitas vezes surgem alguns mestres espirituais que prescindem de valorizar o amor a si mesmo da pessoa como algo não positivo, e assim, induzindo seus discípulos a anularem sua autoestima. A autoestima jamais poderá ser interpretada como “narcisismo”, egocentrismo e etc. De acordo com o sacerdote e psicólogo Jean Monbourquette, (1) na visão destes mestres espirituais fica nitidamente explícita um agir de tradição jansenista (2), pois os mesmos veem nessa valorização da autoestima, além dos elementos já citados acima, também aparece o acento ao individualismo. Torna-se importante salientar que esta maneira de abordar a autoestima conduzirá a pessoa a uma conduta que pode alimentar graves ilusões espirituais da pessoa sobre si mesma.



Em contrapartida, em vez de aniquilar o próprio “eu”, ao contrário, isso deve desafiar o sujeito a uma mudança progressiva do ego para a transcendência do self. Por quê? A saúde psicológica é que irá proporcionar o bonito amor da pessoa por si mesma. Sempre é interessante lembrar-se das palavras de Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração de toda tua alma e de todo o teu entendimento e ao próximo como a ti mesmo”. (Mc 12,29-31; Jo 13,34).



Veja caro leitor! Anular ou dissolver o ego não deixa de ser uma linguagem eivada de violência e assim, torna-se mais que necessário repensar esse tipo de direção espiritual. Então se pode perguntar. Como acontece a passagem da autoestima para a estima do self? “... [torna-se realidade] quando o ego renuncia conscientemente a ocupar o centro da pessoa e a pretender assumir o controle tudo, e se colocar sob a direção do self”. (MOMBOUQUETTE, 2008 p.103).



A essa altura acontece um processo interessante, ou seja, há uma combinação de esforço consciente e voluntário adicionado à “graça de Deus”, aliás, essa sim, vai reforçar e dar sustentabilidade ao esforço da inteligência e da vontade. Por outro lado, existe sempre um momento adequado onde a pessoa irá cessar os esforços voluntários e assim, iniciar um estado de receptividade. Ora, para efetuar esse deslocamento do ego para a estima do self, necessita-se lançar mão de algumas estratégias que ajudam a formar a autoestima. Em outros termos quer-se dizer apelar para os recursos do inconsciente que na prática significa entrar, por exemplo, em auto-hipnose (3) à meditação e a visualização que é força que facilitará a ação do self como abre possibilidade de crescimento do qual o ego não possui.

Observe caro leitor à afirmação de Jung quando faz a seguinte assertiva: “...o crescimento da personalidade verifica-se a partir do inconsciente”. Em se tratando de inconsciente deve-se também levar em conta a posição de Milton Erickson (4) quando diz: “...o inconsciente é o lugar privilegiado e potencial de todo crescimento, por ser a fonte inesgotável de criatividade”. (op cit Erickson in Monbourquette, p.105).

COMO ACONTECE NA VIDA PRÁTICA A PASSAGEM DO EGO PARA A VIDA ESPIRITUAL?

Monbourquette apresenta esse paradigma em três etapas, aliás, que é interessante observar e se refletir, pois estas são passagens presentes na vida de muitas pessoas, entretanto, é preciso ter consciência deste fenômeno para que aconteça um equilíbrio na forma de acompanhar espiritualmente tais pessoas. Vejamos as três etapas citadas por Monbourquette:

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1: Jean Monbourquette – Sacerdote e psicólogo – Mestre em Filosofia e Educação pela Universidade de Ottawa e em psicologia clínica pela Universidade de São Francisco, também possui Doutorado em psicologia pelo International College de los Angeles

2: Jansenismo: Conjunto de princípios estabelecidos por Cornélio Jansênio (1585-1683). Bispo holandês de Ipres – Condenado como herege pela Igreja Católica, pois enfatizava a predestinação, negava o livre arbítrio como sustentava ser a natureza humana por si só incapaz do bem.

3: Auto hipnose – É um poderoso instrumento capaz de aumentar o nível de concentração, combater os vícios e enfrentar traumas. Ajuda a aumentar a confiança, reduz a timidez e alivia o stress e a ansiedade.

4: Milton Erickson – Foi um psiquiatra americano que se especializou em hipnose médica e terapia familiar. Foi o responsável pela hipnose voltar a ser reconhecida no campo da psicologia como técnica que trouxe contribuição ao processo clínico, já que as práticas em uso até então, desconsideravam o funcionamento do inconsciente. 5. Edward Whitmont – Foi um psicoterapeuta da linha junguiana e médico homeopata que introduziu muitos americanos aos fundamentos da Psicologia Analítica por meio dos seus escritos. Formado pela Escola de Medicina de Viena em 1976 e se especializou em psicologia, estudando Adler e Jung. Fundador da Associação Internacional de Psicologia Analítica e do Instituto Carl Jung de Nova York.

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1. Algumas pessoas, desde a juventude, são atraídas pelas intimidações do self e as seguem docilmente.




2. Outras, sobretudo na metade da vida, passam por uma crise existencial. Mesmo quando bem sucedidas em sua vida social, no entanto são atormentadas por questões e reflexões existenciais: “Para que tudo isso”? Qual o sentido de minha existência? Essas pessoas vivem um verdadeiro mal-estar existencial.




3. Outras se veem obrigadas a tratar de grandes questões sobre a existência depois de vivenciar perdas em suas vidas. (MONBOURQUETTE, 2008 p.106).





Ora, nas duas últimas categorias de pessoas percebe-se que a passagem da autoestima para a estima do self não é muito tranquila, pois o despertar espiritual passa por períodos de angústia. Se não forem guiadas e prevenidas, desencorajar-se-ão rapidamente e retornarão à sua rotina fastidiosa, por outro lado, se permanecerem fiéis aos impulsos do self saberão enfrentar esses momentos difíceis e progredir no caminho espiritual.



Dentro desse imaginário se pode inferir o quanto é importante à valorização do ego para posteriormente passar a estima do self. Mesmo que alguns pensadores da espiritualidade insistem em obstaculizar o cultivo do ego propondo a “morte do ego”, a “dissolução do ego”, a “ausência do ego” ou mesmo a “morte de si mesmo” como ideal espiritual a ser alcançado. Ora isso não deixa de serem expressões assassinas que prejudicam o crescimento psicológico e espiritual da pessoa, pois criam a ilusão do perfeito autodomínio e, ao contrário, irão sempre favorecer o orgulho espiritual.




Portanto deve ficar claro o seguinte:


“...uma verdadeira estima do self só pode ser alcançada a partir de uma sólida autoestima, isto é, de um ego que ame a si mesmo. Na falta dele, a pessoa será votada a permanecer espiritualmente imatura e a se nutrir de quimeras”. (MONBOURQUETTE, 2008 p.126). Para reforçar a questão da importância do self na formação de um psiquismo sadio e maduro ao desenvolvimento de uma espiritualidade, é interessante observar a visão do psicoterapeuta Edward Whitmont (5) quando escreve: “... a primeira competência do self pede a implantação de um executor, de um ego consciente e forte, capaz de uma justa adaptação social e dotado de valores éticos”. (op cit Whitmont in Monbourquette p. 125).



Sempre é importante e sadio ter amor próprio sem fechar-se em si mesmo, pois o fechamento é que desenvolve uma personalidade egoísta e doentia como também narcisista. Por isso é que no Evangelho o próprio Jesus nos conclama a viver o amor, embora e, sobretudo, deixando claro que isso não significa anular o próprio eu, mas sim, saber conduzir-se de maneira consciente e saudável para o amor ao outro, pois somos sempre seres de relações interpessoais.



Caro leitor veja a posição do pensador Martin Buber quando afirma que se deve: “...começar por si mesmo, mas não terminar em si mesmo. Tornar-se pelo ponto de partida, mas não pelo fim. Conhecer-se, mas não se preocupar consigo mesmo”. Portanto, a estima por si mesmo significa sabedoria e missão em favor da comunidade.



Por outro lado, cumpre destacar que ter estima pelo self faz com que a pessoa desenvolva maior autonomia, ou seja, ela “...liberta-se aos poucos das pressões de sua posição social e financeira, da opinião de seu ambiente e de sua cultura. Também, e por outro, torna-se livre das regras impostas pelo meio e das solicitações da moda e da publicidade, deixa-se guiar pelas intuições e pelas orientações do self”. (Monbourquette, 2008 pp.140-141).




Finalmente cabe frisar que a vida espiritual consiste em explorar sempre mais a interioridade, ao mundo pessoal de imagens, visões criativas assim como aos diálogos interiores e, por fim, às emoções e aos sentimentos. Dentro deste contexto a meditação é o principal meio que favorece a tomada de consciência da própria interioridade e essa induz à oração e desta para a contemplação na Transcendência. É bom pensar refletir e rezar continuamente para um crescimento humano, social e espiritual a fim de viver uma vida de realização e sempre em busca do sentido último da história humana que se encontra somente em Deus. Mas primeiro, caro leitor, descubra a riqueza de tua interioridade!



Pe. Ari Antônio da Silva

Mestrado Filosofia – PUCRS

Doutorado em Filosofia – UPSA

Universidad Pontificia – Salamanca – Espanha

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