O CAMINHO PARA A UNIÃO COM DEUS PASSA NORMALMENTE POR UM EQUILÍBRIO PSICOLÓGICO


Ao se abordar a questão da espiritualidade na vida humana, especialmente quando se trata da fé cristã é preciso ter consciência de que possuir uma espiritualidade ainda não se trata de um ato de fé, mas é aberto um caminho que possibilita o desenvolvimento da mesma. Talvez a esta altura alguém pergunte: Existe outra espiritualidade que não seja cristã? Sim, há uma nova corrente de espiritualidade que se pode denominar de “Espiritualidade Leiga”.



Na revista cujo título é “Actualité des Religions” nº27, maio 2001, aponta certa semelhança entre a espiritualidade do Self focada por Jung e a espiritualidade leiga. A mesma afirma que “...não deixa de ser uma espiritualidade, embora se apresente como “autônoma”, “sensível à dignidade humana”, “procura um pensamento livre”, “é tolerante”, “mística, sem religião”, “vive habitada por um sopro” e “faz experiência do absoluto”.



Partindo deste pressuposto volta-se a falar do Self de natureza junguiana que nada tem a ver e nem reflete “o espírito politizado e anticlerical da espiritualidade leiga”. Por quê? Jung procura focar a interioridade e a experiência religiosa, ou seja, “...convida a ver nos símbolos sagrados “naturais” outras tantas “revelações” naturais do divino. Em que consiste?



“...a espiritualidade do Self abre-se para as realidades espirituais e eternas expressas por temas míticos naturais e universais. [Daí] Suscita um despertar espiritual e uma sede de infinito. [Ora], sob esse aspecto, o self prepara para o ato de fé naquele que é o único que pode satisfazer nosso desejo de infinito”. (MONBOURQUETTE, Jean – Da autoestima à individuação – Psicologia e Espiritualidade – Ed/Paulinas 2008 p.210).



Infelizmente ao longo de muitos anos houve da parte de alguns orientadores de espiritualidade cristã um acento forte numa chamada “teologia dolorista”, ou seja, trata-se de formas de espiritualidade que preconizam o auto relaxamento desordenado e a procura de humilhações como caminho de perfeição dando assim ao fiel a imitação de Cristo, que preferiu as humilhações da cruz à glória do reino celeste. É preciso ter muito presente a consciência de que jamais se deve alimentar a desestima de si mesmo, pois esse imaginário tem provocado uma deformação na espiritualidade de milhares de religiosos e educadores, os quais, por sua vez, transmitiram essa triste herança a uma multidão de cristãos.





“...o movimento da desestima de si mesmo ainda anima alguns cristãos de tendências jansenistas, que denunciam, por exemplo, as contribuições das ciências humanas para o desenvolvimento da pessoa”.(MONBOURQUETTE, 2008 p.202). Sebastian Moore (2) afirmava: “...opor a espiritualidade cristã à uma psicologia que favorece a autoestima é um erro desastroso”.






E ele continua:

“...a pobre auto imagem pregada por esse gênero de espiritualidade dá maior importância aos efeitos do pecado original do que à ação transformadora do Espírito”. Portanto, é importante frisar que ter um equilíbrio psicológico feito de interioridade sadia, de autoestima e de valorização dos dons pessoais é extremamente importante na condução da consciência dos orientandos, embora e, sobretudo, deve-se por outro lado, conduzir toda a pessoa a reconhecer as próprias misérias. Vendo a espiritualidade cristã sob esse aspecto quer-se retratar o quanto é importante frisar ao sujeito a necessidade de autoestima assim como de autoconfiança no processo de uma espiritualidade madura e sadia.



É lamentável verificar ainda hoje certa memória coletiva da espiritualidade cristã, centrada na humilhação. Afinal isso tem conduzido muitos cristãos, ainda em nossos dias, a permanecerem presos a esse conceito desconfigurado de espiritualidade e que não conseguem se libertar, mesmo quando os mesmos se revoltam contra isso. No fundo essa visão não deixa de ser a indução da pessoa a um ódio a si mesma. Ora, tal postura jamais irá contribuir para o desenvolvimento de uma autêntica e sadia espiritualidade. Chama a atenção uma observação que Monbourquette faz em relação às consequências práticas fomentadas e apontadas por pensadores e cientistas ao longo da história contra a espiritualidade.




Observe caro leitor!


“...não é de se surpreender que psicólogos, sociólogos e filósofos “freud-nietzschiano-marxistas” tenham assumido a posição oposta a essa espiritualidade masoquista e se tenham posto a louvar as grandezas prometeicas do ser humano e sua onipotência. Esses filósofos ateus caíram no excesso contrário, glorificando indevidamente o ser humano e ocultando sua miséria”. (MONBOURQUETTE, 2008 p.204).




E o autor segue dizendo:


“...desviada, a espiritualidade cristã confundiu a virtude da humildade cristã com humilhação, [..] essa forma de pensamento perverte o mistério da cruz de Jesus, interpretando-a como inspiradora da dor. A paixão de Jesus foi um acontecimento pontual, uma prova de amor desmedido pela humanidade. Não representa um modelo de sofrimento a perpetuar. Mais do que a paixão e morte, no pensamento de Deus prevalece a ressurreição, pois a vida tem prioridade sobre a morte, vencida na cruz”.




ALGUMAS CITAÇÕES DE PADRES DA IGREJA QUE VALORIZARAM A AUTOESTIMA NA SUA ESPIRITUALIDADE



1. “...A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do ser humano é a glória de Deus”. (Santo Irineu, século II)



2. “...Ninguém é tão próximo de uma pessoa como ela mesma”. (São Bernardo de Claraval)




3. “...O amor a si mesmo, sendo o modelo do amor aos outros, está acima deste último como princípio”. (Santo Tomás de Aquino).




ALGUNS MESTRES ESPIRITUAIS QUE SEGUEM NA MESMA LINHA

1. “...A grandeza de Deus se revela na grandeza do ser humano”. (Maurice Zundel, escritor do século XX)



2. “...Há pessoas que não mais se amam e perderam a capacidade de amar aos outros; fecham-se em sua casca e promovem o individualismo. Elas devem reconciliar-se com a vida”. (Jean Vanier).




3. “...Como poderia o ser humano detestar e aviltar com a razão, em si mesmo, o que Deus criou com amor? Que Deus, que Pai teria prazer em que nos desdenhássemos e pisássemos e destruíssemos a imagem de Deus que somos”. (Maurice Bellet).



4. “...A desvalorização da pessoa impede que tornemos Deus digno de fé, mas o sentido de sua grandeza a situa nas fronteiras da fé em Deus”. (Sebastian Moore, monge beneditino inglês). (fonte: op cit in Monbourquette pp. 205-206)




Estes são alguns testemunhos claros de que um psiquismo sadio e equilibrado faz a diferença no cultivo da espiritualidade cristã. E nesse sentido é interessante frisar a posição de Carl Jung quando foca o Self como um Eu consciente, afinal ele reconhece a importância primordial da religião, no sentido etimológico do termo, religare, “religar as coisas entre si”, isso, segundo ele, funda-se no caráter divino da alma humana e nos arquétipos transcendentes, que são “revelações naturais” do sagrado.



É interessante frisar que Jung com sua visão de espiritualidade, quando foca o Self, ele se opôs a todos os humanismos ateus de seu tempo a tal ponto que qualificou o Self de “imago Dei= imagem de Deus) e com isso se aliando a sabedoria secular das grandes religiões à sua longa pesquisa científica. Ele tirou do Budismo o conceito de Self, e do cristianismo a “imagem divina” para designar a alma.




E diz mais:


“...as religiões, além de ligarem a alma a Deus, são sistemas de cura de doenças psíquicas. A psicologia tem necessidade das intuições veiculadas, sobretudo pelo cristianismo e pelo budismo para que lhe proporcionem uma sabedoria que a ultrapasse” (op cit in Monbourquette, p. 209).



Outro aspecto a ser destacado nesse texto quanto ao Self trata-se de sublinhar que a espiritualidade do mesmo é que ajuda a descobrir a existência do sagrado, portanto, self e fé se complementam, pois acaba sendo um preâmbulo para dar o passo à fé. A experiência do self, segundo Jung, é uma das que podem ser qualificadas como místicas naturais, embora, e, por outro, nem toda experiência mística é experiência de Deus.



Do mesmo modo a meditação a partir dos grandes símbolos gerados pelo Self cria um imenso apetite e o desejo de uma vida em plenitude. Por isso a meditação nos aproxima do mistério, mas não nos faz entrar no mistério de uma Pessoa. Portanto: “...A espiritualidade é quase indispensável a uma fé viva, mas ambas são realidades diferentes, [...] pois a fé [é] uma resposta pessoal e livre às aspirações descobertas na espiritualidade”. (MONBOURQUETTEM, 2008 p.211).



E segue o autor:


“...a passagem da espiritualidade à fé “é o sentimento súbito de uma Presença pessoal quando aspirávamos ao que nos parecia desconhecido”. De maneira que sem uma forte espiritualidade, a fé tende a ser superficial e exclusivamente sociológica”.




Finalmente é bom frisar que:


“...a espiritualidade do self fundada somente nos arquétipos do inconsciente coletivo não produziria um ato de fé cristã. É pela revelação divina que a pessoa responde ao convite de aceitar o acontecimento histórico de Jesus Cristo e de se comunicar com Deus Pai, Filho e Espírito Santo” (ibidem). Portanto a espiritualidade do self torna-se um preâmbulo para a fé.



Entretanto, uma espiritualidade cristã que se distancia dos progressos da psicologia, segundo Jung, sobretudo no tocante à autoestima, “...se tornará estéril e retrógada e não mais corresponde às aspirações do mundo moderno”.(ibidem p.215).



E mais:


“...se essa mesma espiritualidade cristã se tornar ciumenta de seu domínio e passar a defender contra todas as contribuições de outras espiritualidades, tornar-se-á rapidamente inclinada a se fechar numa atitude sectária e institucional. A fé tem necessidade de estruturas espirituais de acolhida do Self e de seu rico simbolismo para atingir as profundezas do inconsciente”.



Sempre é bom pensar e refletir por qual caminho que se está trilhando.


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1. Bernard Ugeux – Sacerdote e antropólogo – Doutor em teologia e em História das Religiões. Dirige o Instituto de Ciência e de Teologia das Religiões na Universidade Católica de Toulouse. É autor do livro: Reencontrar a fonte interior: Publicado pela Ed/Vozes.

2. Sebastian Moore – Monge Beneditino inglês – Autor de vários livros:

Viagem em profundidade: A experiência de iniciação na formação monástica e junguiana; A solidão interior, entre mais de outros títulos.

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