MÍSTICA E A ESPIRITUALIDADE CRISTÃ EM TEMPOS CONTURBADOS


Os tempos atuais envoltos em uma situação de inúmeros e paradoxais conflitos têm conduzido a sociedade como um todo a repensar a vida, o comportamento e as escolhas que cada indivíduo se propõe a fazer. Nesse aspecto é importante frisar que o ser humano não é uma ilha no contexto cósmico, e sim alguém que deva sentir-se inserido em toda a trama do universo. Por outro lado, é mister saber que o homem e a mulher do nosso tempo saibam que não são alheios a natureza, mas sim, que fazem parte intrínseca da mesma. Cientes dessa realidade necessitam repensar o progresso, o desenvolvimento, a tecnologia e a ciência sempre voltada a esta consciência a fim de que haja harmonia em tudo aquilo que se deseja construir, desenvolver e cultivar no Planeta Terra.



A cultura ocidental influenciada pela ideologia do racionalismo exacerbado e de ideologias perversas quanto egoístas assim como de um passado nem tão distante, elegeu a razão como verdade última. Esta ousadia tem tido um alto preço ao longo da história dos últimos decênios para todo o tecido social não apenas local e, também mundial, mormente, o mundo ocidental que tem conduzido a uma descaracterização da própria identidade humana. É muito oportuna a frase de Anselm Grün, quando afirma: “...quem só quer conhecer tudo com a razão e não escuta a alma fracassa em sua vida”.



O que se tem percebido diante dessa visão racionalista é que além de ser unidimensional, paulatinamente tem se afastado das próprias raízes, realidade essa, que a cultura oriental tem tido maior fidelidade e consciência de harmonia entre o humano e a natureza. A contradição original de onipotência ante a vida é um erro significativo no dia-a-dia das pessoas, pois certamente se trata nesse episódio de um grasso engano na conceituação antropológica, ou seja, quando o homem tem se reduzido a um ser de razão pura. Ora, toda e qualquer ideia e/ou princípio reducionista incorre “ipso facto” em erro, pois omite uma visão de totalidade, afinal em primeiro lugar o ser humano é um ser cognitivo, biológico e espiritual e, em segundo lugar está inserido no cosmo do qual é parte integrante dessa mesma natureza e, negar isto, é prescindir do óbvio.



Se por um lado, a sociedade contemporânea é agraciada pelo avanço fascinante da ciência, da tecnologia e do desenvolvimento, por outro se observa infelizmente, a tendência é para um reducionismo preocupante fomentado pela cegueira e egoísmo de muitos, pois a ciência e as novas descobertas decorrentes da mesma além de em muitas situações serem conhecimentos estanques, ou seja, desvinculados do todo, acaba atingindo o âmago da essência humana com consequências psicossomáticas graves, ou seja, o aparecimento de distúrbios que atingem a saúde psicológica, biológica e espiritual do conjunto da sociedade.




O homem e a mulher contemporâneos necessitam neste momento histórico ter a capacidade de parar, repensar os valores e os princípios que talvez se tenha deixado para segundo plano na existência e redescobrirem-se como seres que cultivem a vida adicionando ao seu comportamento as virtudes cardeais e teologais como algo importante para fortalecer e promover qualidade de vida e a dimensão da espiritualidade como fator integrador do equilíbrio da vida.



Por quê?


“...a espiritualidade permite e embasa a estrutura para que o humano irrompa as amarras limitadas das percepções apenas dos cinco sentidos. Vamos além. E este exercício é proporcionado inicialmente pela aceitação das práticas ecológicas, estruturadas em forma sistêmicas e de redes”. (HOFF, Luiz Felipe – Ponto de Ruptura – Desafios da Sociedade Sustentável – Ed/Alegoria – 2008 p.128).



E autor segue:


“...enquanto grande parte das doutrinas ocidentais pensavam num Deus distante de nós, num céu longínquo, e nossa conexão com Ele era fraca, aprendíamos que as soluções para as nossas aflições deveriam vir de fora, além de esperarmos que o outro ou Este Poder Superior fossem responsáveis pelas nossas ações, sorte o até mesmo abundância”.



Entretanto deve ficar claro que mesmo que se tenha uma conexão com o divino e promovendo a Deus com uma sensação de pertinência como “todo”, jamais se pode conceituar Deus como se fosse uma energia cósmica, pois sempre que se tente definir o que seja Deus, corre-se o risco de reduzi-lo a algo, e, portanto, já não se trata do verdadeiro Deus da bíblia. Contudo a conexão com Deus não significa diluí-lo no cosmo e identificá-lo com o universo, pois se trataria de “algo objeto” e, portanto, deve ficar explícito que Deus sempre escapa da apreensão via razão humana, embora esteja presente no interior do ser humano.



Em contrapartida vê-se que os tempos atuais são marcados pela ausência de silêncio na vida do dia-a-dia dificultando a interiorização do ser humano ao “ser-si-mesmo”. No entanto emerge daí a importância de uma introdução à meditação como caminho condutor à Transcendência. Para acessar ao verdadeiro Deus da Bíblia, a meditação nos indica quatro etapas, a saber: a leitura espiritual, a meditação propriamente dita seguida da oração e desta para a contemplação.



Por outro, para alcançarmos o topo do encontro com a Transcendência o ponto de partida sempre será o cultivo do silêncio interior, realidade esta cuja cultura do barulho, do consumo e do mercado dificulta, se cada pessoa conscientemente não tirar tempo para esse exercício do silêncio e da meditação, pois do contrário o mercado com seus braços e tentáculos paradoxais via meios de comunicação bombardeiam 24 horas para através de a propaganda subliminar invadir nosso espaço interior e minar com suas metas e objetivos.



Esta estratégia do mercado é pensada, pesada e medida para incitar ao consumo, ao retratar sempre novidades contínuas como a ocupação absoluta do tempo em questões totalmente alheias ao silêncio. Esta lógica mercadológica produz uma situação de nunca dar tempo à quietude e ao silêncio, pois o objetivo sempre é preparar o indivíduo ao consumo desmedido e absoluto e assim o mesmo esquecer-se de si e de sua interioridade. Esta estratégia do mercado, infelizmente esvazia a capacidade de concentrar-se no essencial. Com isso exige de cada homem e mulher a capacidade de discernir do que é necessário consumir e do que é supérfluo e evasivo.



Lembre-se caro leitor que:


“...a cultura hodierna vive uma realidade estressante e cheia de conflitos, angústias, pois lhe falta o dom da paz e a autêntica vivência da espiritualidade crística”. (Pe. Ari Antônio da Silva – Pensamento do dia, facebook, datado de 18/04-2021).




SILÊNCIO INTERIOR: SEGREDO PARA EQUILÍBRAR A VIDA E CAPACITAR O SER HUMANO À AUTÊNTICA ESPIRITUALIDADE



Não há como cada ser humano estar focado no “todo” e, ao mesmo tempo construir-se harmônica e sadiamente sua história, sem olhar para dentro de si, mas para tanto necessita focar na sua individualidade a fim de que possa se realizar em todos os aspectos da existência, embora deva sempre levar em consideração o equilíbrio entre a ação e a contemplação. Tal realidade faz parte de uma estrutura antropológica harmônica. No entanto os tempos atuais conduziram a humanidade a viver de exterioridades como se isso proporcionasse realização e felicidade. Entretanto ser feliz tem seu fundamento no encontro consigo mesmo, com o outro e com Deus. A cultura do “ter” perdeu-se na ânsia de buscar avidamente o acúmulo de bens quando o segredo do bem viver sempre é regado pela virtude da simplicidade, da humildade e da frugalidade. Sem dúvida no hoje da história, mais do que nunca se torna necessário redimensionar tanto nossa vida pessoal quanto comunitária para um novo começo e com sentido.



“...nossa cultura [...] é extremamente eficiente em nos bombardear com palavras e imagens, e por isso o silêncio tornou-se contracultura [...] as crianças não têm mais sequer o conceito de silêncio, exceto a noção de vazio, um oco assustador. Elas não sabem mais como ficar quietas e eu temo que isso seja verdade para [todos nós] como um todo”. (TURNER, Graham – Silêncio interior – A chave para encontrar o equilíbrio e a espiritualidade – Ed/Vozes/Nobilis – Tradução de Cláudia Barcellos – 2016 p.11).



Essa é a realidade nua e crua que se vive nesta cultura do consumo e do ter e, com poucas opções, afinal as lideranças que se têm, ressalvando sempre as exceções, nem sempre nos proporcionam as devidas mudanças, por estarem atreladas a uma minoria abastada e que domina o pensamento e a própria cultura em favor de seus lucros no mercado, fascinados pelo dinheiro e pelas riquezas esvaziando assim, o próprio mundo interior do ser humano. Aliás, nem os que possuem algo muitas vezes não sabem por que possuem tanto e por outro lado, tantos semelhantes passando as necessidades básicas para sobreviver. É um contrassenso ante um mundo desigual e niilista que perdeu o verdadeiro sentido da vida. Partindo dessa constatação da situação hodierna emerge para o cristão, mormente os cristãos católicos a redescobrirem o caminho para a santidade que tem como pressuposto uma consciência de que algo deve mudar no ser-si-mesmo cada um e o caminho é a meditação.



Por quê?

“...quando meditamos restauramos a harmonia de nosso ser que foi perdida. Nela, somos levados à plenitude da harmonia pelo ouvir uma harmonia profunda. Este ouvir é o encontro com o Espírito Santo, o Espírito de Deus que habita em nós e que como diz São Paulo “...vem em auxílio de nossa fraqueza”. (FREEMAN, Laurence). E certamente nos colocando nesse novo caminho, talvez abandonado para buscar atalhos que nos favoreçam os nossos gostos esquecemos que Deus nos espera, pois nos criou para sermos felizes.



E o autor continua:


“...[e a] oração cristã é mais do que relaxamento. É paz, é um estado de energia divinizadora não para recarregar as baterias mentais. É mais que aguçar o despertar da nossa consciência; é conhecer a mente de Cristo”. Para muitos cristãos católicos que se afastaram de Deus e da Igreja seja nesse momento da história da humanidade a oportunidade para retomar aquilo que se recebeu um dia pelo batismo em nome da Trindade Santa, mas, que paulatinamente deixaram de crescer na intimidade com Cristo, realidade que aprenderam de seus pais, da Igreja e, assim, iniciar um novo caminho espiritual. Para o nosso caminho espiritual é indispensável que façamos nossa descoberta de nossa alma. Dizia Gregório de Nissa: “Deus desejaria nascer na alma humana”.



Um dos caminhos para o encontro com Deus certamente é pela meditação, justamente em época cujos distúrbios de variadas naturezas que se abatem sobre o ser humano, especialmente aos cristãos católicos, que muitas vezes essas mesmas manifestações psicossomáticas retratam a falta de quietude, de silêncio e da meditação, porque não nos damos o tempo para parar. Mas é bom frisar que: “...a meditação faz todo o sistema nervoso entrar em um campo de coerência”. (Deepak Chopra).



Finalizando o texto desta semana tento passar a mensagem da importância que o silêncio tem na vida. “O coração silencioso está “...repleto de amor, gratidão, generosidade, perdão e compaixão”. O intelecto silencioso está livre de dogmas, obsessões e ismos. (TURMER, 2016 p.31). Desse pressuposto o autor segue dizendo quais os frutos do silêncio, ao afirmar: “Um corpo silencioso é como uma casa bem conservada e limpa, organizada e arejada”. Portanto tenta-se expor ao leitor o quanto é preciso repensar e redimensionar as escolhas que a cultura do barulho e do consumo quando levada a absolutização prejudica o bem estar e a qualidade de vida de qualquer ser humano, o que em contraposição não significa prescindir do progresso, do desenvolvimento, mas desafia o leitor a desenvolver uma consciência crítica a fim de perceber quais os limites necessários ante os vislumbres da tecnologia e da ciência. Afinal tudo é provisório, tudo é finitude, entretanto, o único necessário é Deus como resposta última para a realização da vida humana.



Sinta-se desafiado a pensar!

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