ECONOMIA E CRISE ÉTICA: REFÉNS DA GLOBALIZAÇÃO DO MERCADO




Inspirado no título de um livro publicado na Itália intitulado “Ditadura da Economia” e comentado pelo site https://www.facebook.com/outrasmídias/michel-löwi”, tomo a liberdade de mencioná-lo neste texto que agora publico trazendo ao leitor alguns elementos importantes,

mormente para os católicos que são críticos da postura do Papa Francisco. É uma abordagem de um sociólogo e filósofo de formação marxista para conduzir o leitor a entender do porquê da rebeldia dele frente à economia globalizada, bem como a repulsa ante o capitalismo neoliberal. Toda a sociedade contemporânea vive uma situação de efervescência em todos os aspectos da vida, no entanto, é visível que o contexto societário hodierno tem entrado numa “torre de babel”, mormente ao tratar-se do reducionismo da realidade da existência humana como um todo para o “fazer” e prescindindo do exercício do “ser”. Isso tem gerado um desconforto generalizado em todo o tecido social, político e religioso.



Ora, visto num contexto amplo da atual realidade, percebe-se na cultura contemporânea um vazio do sentido último da vida, pois em tudo a mesma tem sido reduzida a “cifrões” e, esquecendo de que a vida vai além da economia e do progresso, e, ao mesmo tempo, ambos têm um fundamento teológico (Gn 1,28ss). Esses, por sua vez têm seu espaço, embora, e sobretudo, sem serem absolutos. A absolutização do progresso e da ciência, da economia e do desenvolvimento não deixa de ser uma atitude de arrogância frente à “Grande Razão Criadora do Bem”. Portanto, pode-se dizer que há uma crise cultural de proporções significativas, que clama aos céus por excluir o “todo” do humano para eleger um materialismo crasso e desconfigurado do contexto da própria vida humana e do cosmo.

Para ajudar a reflexão sobre o impasse da postura do Papa Francisco em relação à sociedade capitalista, e da elite mundial, tomo como inspirador nesta reflexão o pensador sociólogo e filósofo, Michel Löwy.



Michel Löwy nasceu em São Paulo, 06 de Maio de 1938. É um pensador especialista no pensamento marxista, brasileiro, mas radicado na França. Diretor do Centre National de la Recherche Scientifique. Formado em ciências sociais pela Universidade de São Paulo. Concluiu seu doutorado em 1964. Talvez alguém dos leitores se pergunte como que tenho a coragem de citar um pensador marxista. Para justificar tal escolha, parto sempre do princípio que qualquer pensador equilibrado e sério independente de sua ideologia, sabe ouvir também o diferente e valorizar o outro, mesmo não concordando na totalidade de seu pensamento. Em contrapartida, tem-me chamado à atenção o artigo que Michel tem publicado sobre o Papa Francisco e por que a rebeldia dele em relação a atual Conjuntura Política socioeconômica mundial. Neste artigo Michel Löwy afirma que o papa Francisco critica e com razão, o economicismo deslumbrado, dispersivo e reducionista da vida como um todo e diz que:

“...o cinismo dos mercados, a incapacidade de aprender com as crises e a devastação ambiental [que] são vazios de sentido à humanidade, precisam ser superados – e uma “revolução cultural” não tardará”.


Jorge Bergoglio, o Papa Francisco e sua ousadia ante um mundo decadente e materialista


O Cardeal Jorge Bergoglio foi eleito “Pontififex Maximum” em março de 2013. Latino Americano, o que já de alguma forma significa mudança, até porque foi escolhido e eleito pelo mesmo conclave que havia empossado Ratzinger. Veio da Argentina, um país onde a Igreja não prima pelo progressismo – tendo vários de seus dignatários cooperado ativamente com a sanguinária ditadura militar. É interessante que Löwy destaca que Bergoglio, segundo testemunhas, teria até ajudado perseguidos pela Junta a se esconder ou a sair do país – mas ele também não era opositor ao regime: acrescenta “um pecado de omissão”, poder-se-ia dizer. No entanto afirma Michel: “...se alguns cristãos de esquerda como Adolfo Perez Esquivel (Prêmio Nobel da Paz) sempre o apoiaram, outros o consideravam como um opositor de direita, também o fez ao governo dos “peronistas de esquerda” Nestor e Cristina Kirchner.



Francisco – nome que ele escolheu em referência a São Francisco, o amigo dos pobres e dos pássaros. No entanto, segundo Michel o que chamou a atenção logo em seguida foram “...as tomadas de posição engajadas e corajosas. Nisto ele lembra o saudoso Papa João XXIII, eleito como “papa de transição”, e que deu início à transformação mais profunda na Igreja em séculos: o Concílio Vaticano II (1962-65). De acordo com Löwy, Bergoglio tinha inicialmente pensado em assumir o pontificado com o nome de “João XXIV” em alusão e honra a seu predecessor dos anos 1960.



Faz-se necessário observar que Francisco, papa ao fazer sua primeira viagem fora de Roma que ocorreu em Julho de 2013 no porto italiano de Lampedusa, aonde chegavam centenas de imigrantes clandestinos, muitos deles tinham se afogado no mediterrâneo e ali em sua homilia não temeu assumir a contracorrente do governo italiano – e de boa parte da opinião pública, mesmo assim, ele denunciou o que chamou de:

“...globalização da indiferença” que nos deixa “insensíveis aos gritos dos outros”, isto é, “dos imigrantes mortos no mar, nestes barcos que, no lugar de serem um caminho da esperança, foram uma rota para a morte” (op.cit Löwy em seu artigo).



Nessa mesma direção ocorreu na América Latina do mesmo ano 2013 o encontro de Francisco com o protagonista da Teologia da Libertação Gustavo Gutierrez em seguida o jornal do Vaticano L’osservatore Romano, publicou algo favorável a este pensador como também fez a beatificação de Dom Romero assassinado em 1980 pelos militares por ter denunciado a repressão contra a população. Em sua visita à Bolívia Francisco também visitou o “Encontro Mundial de Movimentos Sociais” na cidade de Santa Cruz. O discurso ali pronunciado ilustrou sua “...profunda aversão ao capitalismo da qual falava Max Weber, mas em nível jamais alcançado por qualquer um de seus predecessores” (LÖWY, Michael). E segue:


Francisco em uma passagem usou uma linguagem que se tornou célebre quando afirmou: “...está-se a castigar a terra, os povos e pessoas de forma quase selvagem. E por trás de

tanto sofrimento e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesaréia – um dos primeiros teólogos da Igreja – chamava de “o esterco do diabo”: reina a ambição desenfreada de dinheiro. É este o esterco do diabo. O serviço do bem comum fica em segundo plano [...] quando o capital se torna ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos , põe em risco a nossa casa comum, a irmã e a mãe terra”. (op.cit in texto de LÖWY).


Rush Limnegaugh


Tal postura de Francisco d’ora em diante encontrou muita resistência por parte de setores mais conservadores da Igreja. Alguns de seus adversários acusam o novo pontífice de ser herético, ou mesmo um “marxista disfarçado”. O jornalista católico Rush Limnegaugh (norteamericano) o qualificou de “papa marxista” e, Francisco, polidamente respondeu que não estava ofendido, pois conhecia vários marxistas que eram pessoas de bem. Em 2014 o papa recebeu em audiência dois iminentes representantes da esquerda europeia Alexis Tsipras como Walter Baier. Nesta ocasião iniciou um processo de diálogo entre marxistas e cristãos, que tomou a forma de vários encontros, e isto, culminou em 2018, em uma Universidade de Verão comum na ilha de Syros, na Grécia.

Segundo o sociólogo e filósofo Michael Löwy, com clareza e convicção definiu o Papa Francisco ao afirmar que:



“...o Papa Francisco não tem nada de marxista, e sua teologia está distante da teologia da libertação sob sua forma marxizante. Sua formação intelectual espiritual e política deve muito à “Teologia do povo”; é uma variante argentina não marxista da teologia da libertação, cujos principais inspiradores são Lúcio Gera e o teólogo jesuíta Juan Carlos

Scannone. Essa teologia do povo não reivindica a luta de classes, mas reconhece o conflito entre o povo e o “antipovo”, e faz a opção prioritária pelos pobres. Ela manifesta menos interesse às questões socioeconômicas que as outras formas da teologia da libertação, e uma maior atenção à cultura, e especialmente à religião popular.

É interessante dar destaque a um artigo de Juan Carlos Scannone que publicou em 2014 com o título: “O Papa Francisco e a Teologia do povo”. Neste artigo Scannone insiste, com razão, que em tudo o que as primeiras encíclicas do papa falaram como a Evangelii Gaudium (2014), deve a esta teologia popular, difamada por seus críticos de esquerda como “populista” (no sentido argentino, peronista, e não europeu, desse termo). Diz ainda Juan Carlos Scannone que Bergoglio em sua crítica ao “ídolo capital” e de todo o “sistema socioeconômico” atual vai além de seus inspiradores argentinos. É o caso, particularmente, de sua última Encíclica, Laudato Si’ (2015), que Michael Löwy diz que merece uma reflexão marxista.

(continua no próximo artigo. A Laudato Si’ sob a ótica de Michel Löwy).

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