DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA E O BEM COMUM


Sempre é oportuno refletir e aprofundar assuntos que dizem respeito a nós cristãos, especialmente os católicos. Um tema importante no contexto da atual sociedade, que passa por momentos delicados em relação à saúde da mesma, bem como conflitos políticos e socioeconômicos, vem à tona a questão da solidariedade, da justiça, do cuidado e da igualdade social.



A época atual deve ser de um profundo respeito, compreensão e carinho aos doentes, aos pobres, discriminados, aos idosos, aos indefesos como as crianças abandonadas - e muitos outros sofridos que, muitas vezes, são considerados sobras humanas e marcados por uma sociedade baseada na ideologia do ter, do acúmulo de riquezas, da vaidade e do poder. Muitos se dizem cristãos e se autoproclamam seguidores de Jesus, no entanto, a prática neste momento retrata que muitos não estão “nem aí” com aqueles que sofrem de muitas carências e abandonados à própria sorte. A Igreja, mormente a católica, embora haja outras denominações que também atuam na ajuda ao próximo, possui uma orientação básica de justiça e caridade inspirada no que o Divino Mestre Jesus Cristo ensinou, afinal é com base nessa conduta em nossa vida que seremos julgados.


Desde os primórdios da Igreja, a mesma tem se preocupado com os menos favorecidos, haja visto as atitudes e a vivência dos primeiros cristãos (Atos 2,42ss) que chamavam a atenção da sociedade de então. A doutrina Social da Igreja tem um fundamento histórico longo e que faz parte da essência da mesma. O leitor talvez pergunte: Aonde tem seu fundamento a Doutrina Social da Igreja? É uma obrigação moral mostrar que todo o ensino cristão católico parte de fundamentos muito sólidos e consistentes no que diz respeito à ética social cristã; afinal, o homem e a mulher foram criados “...à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27). Portanto, é bom saber e ter ciência que Doutrina Social da Igreja (abreviação DSI) não se trata de uma ideologia, mas de um princípio básico para poder se afirmar: “Sou cristão católico”.



Um dos elementos importantes a ser frisado, em relação à DSI, é que a mesma tem seu fundamento, em primeiro lugar, na Sagrada Escritura. De acordo com Padre Jesuíta Rodger Charles, estudioso da mesma, tem sido esclarecedor ao revelar que DSI, “...não nasceu com a Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII de 1891, como muitos talvez pensam, mas a partir da Bíblia Sagrada (A Palavra de Deus)”. Daí se pode inferir que as diversas acusações feitas ao longo da história não possuem consistência histórica e, menos ainda, teológica. Infelizmente, muitos cristãos católicos, como outros críticos, não têm um conhecimento profundo e, muitas vezes, criticam a atitude social da Igreja como algo de natureza ideológica.

Acusar o trabalho social da Igreja como sendo algo de comunista, socialista, é simplesmente ridículo e desprovido de fundamento. Ora, isso não deixa de ser uma arbitrariedade grosseira, pois o real fundamento já se encontra no AT e se aperfeiçoou ainda mais com a presença de Jesus na história humana, ou seja, mediante o evento do Mistério da Encarnação que solidificou algo que faz parte da essência verdadeira e autêntica fé cristã.


Neste contexto a pergunta que o leitor talvez queira fazer trata-se de saber quais os pilares que fornecem a fundamentação da DSI? Primeiramente é importante frisar que:

“...o ensino social da Igreja é baseado no princípio de que os seres humanos individuais são o fundamento, a causa e o fim de cada instituição social, [...] como representa a asserção primordial da antropologia cristã. O ser humano não pode ser reduzido a mero fragmento da natureza ou elemento anômico da sociedade”. (CARNEIRO, Pedro Erik – Ética Católica para a Economia – Biblia, Teólogos e a Ciência Econômica – Appris Ed. – 2019 p.57).




A FÉ VERDADEIRA EM JESUS CRISTO EXIGE COERÊNCIA

ENTRE A AFIRMAÇÃO E O AGIR


Uma fé formal e que não conduz á uma ação transformadora é falsa


Em coerência com a fé cristã católica, embora haja também outras denominações cristãs, [diga-se de passagem, nem todas] é claro, há uma participação efetiva na ajuda e dedicação aos doentes em geral, mas, e de modo especial, nesse tempo da Pandemia do Coronavírus e, que neste exato momento, assola toda a humanidade. Por outro lado, é bom frisar que o mundo vive uma situação de constrangimento e numa “saia justa” devido a algo que não se esperava. Já abordei em outros artigos publicados recentemente que esse microscópico vírus, parece ter abalado a onipotência e toda a pretensa grandeza de poderosos, de significativos donos do dinheiro, empresários, multinacionais, cientistas com ares de onipotência, nações ricas, governos poderosos e ditatoriais e opressores, pensadores livres e descomprometidos com o bem comum da sociedade e que se consideravam até então, a última instância da verdade do homem. Em contrapartida, essa Pandemia deu o troco ao mostrar que tecnologia e ciência de ponta têm limites e nunca serão fim último e, muito menos, palavra final sobre a vida, o homem e a mulher.




O planeta terra parou e respirou ante a efervescência dessa epidemia que se tornou Pandemia, até a ousada subestimação de muitos governos e responsáveis pelo bem comum. Ora, o coronavírus com o consentimento dos homens do dinheiro ou não, obrigou a todos independentes de credo, ideologia, grandes empresários e empresas abastadas pelo dinheiro, políticos embriagados no poder e em suas posses, suas vaidades a se prostrarem diante de sua própria insignificância e finitude ao mostrar que não somos nada.


Sem ter a pretensão de fazer julgamentos de posturas obrigou-nos a parar, pensar e perceber que somos todos irmãos e irmãs que uns precisam dos outros, e, certamente, não é com atitudes de arrogância e desprezo como se têm observado em muitos de nossa sociedade, de políticos envaidecidos pelo poder e inclusive outros que se dizem cristãos e que proclamam que honram a Deus, mas discriminam o próximo é que possuem a resposta para tudo. Talvez é o momento importante de reportar-se ao episódio bíblico:

“...Onde está teu irmão Abel? Caim respondeu: “Não sei. Acaso sou guarda de meu irmão? Javé disse: Que fizeste! “Ouço o sangue de teu irmão, e do solo, clamar para mim”. (Gn 4, 9- 11).



Essa conduta é que vem sendo vivida por muitos que se dizem ter fé em Deus. Que Deus é esse que não vê a dor e o sofrimento do irmão que está ao seu lado? Certamente não é o Deus de Abraão de Isaac e Jacó! Não é o Deus de Jesus Cristo, e sim, o deus dinheiro, do poder e do prazer!!! O momento é de extrema gravidade, e, como é que se explicam pessoas que ainda façam piada da dor dos irmãos e irmãs? Será que não estão honrando seu bezerro e/ou ídolo de ouro, e não sabem ou não se deram por conta?

O tempo presente é de medo, insegurança e desespero para muitos. Aonde se encontram os que dizem amar os irmãos indo ao templo? Onde estão os que fazem curas milagrosas? A verdade é que os pobres, indefesos, as minorias étnicas parecem mesmo serem “sobras humanas” e não pertencentes ao gênero humano. São episódios trágicos da realidade que somente percebe quem possui uma visão humana da vida e que veem no rosto do irmão a face de Deus. Esse sim tem a fé verdadeira. A fé não se reduz à formalidades e sim em ação que transforma. Muitos que têm responsabilidade de gestar a “Coisa Pública”, ressalvando sempre as exceções, se protegem em seus cômodos. Deus terá que perguntar a muitos da sociedade hodierna como a muitos que se dizem cristãos: Onde está teu irmão infectado? Que fizeste em prol dele?



Não se tem dúvida que Deus vá inquirir todos os responsáveis pelo cuidado da ecologia humana e ambiental, sejam “gestores públicos”, “cidadãos”, religiões e/ou organizações, afinal todos têm obrigação moral e ética em fazer acontecer o bem comum a todos os meandros da existência, principalmente os que dizem que têm fé. Afirmar que ama a Deus e não estende a mão ao próximo que está ao seu lado, é falsidade e não tem amor a Deus.


A Igreja Católica, não excluindo outras denominações cristãs, ressalvando as exceções, precisam ter a consciência de que o Mestre Jesus sempre voltou sua preocupação de sua época aos doentes, pobres, discriminados, minorias étnicas e desenvolvido um trabalho social para todos os que necessitavam.



Essa é a convicção da Igreja Católica ao estar na linha de frente neste e em outros tantos momentos de dificuldade de pessoas e nações ao longo da história. É bom frisar que no passado era a Igreja que mantinha os hospitais, creches, sanatórios, lares de idosos, crianças abandonadas e órfãs. Mas quando o capital financeiro movido por uma economia do mais forte e do lucro descobriu que a desgraça de muitos poderia se tornar uma fonte de renda, religiosos (as), foram enxotados destes campos para dar lugar ao interesse econômico. Para ajudar o leitor a se questionar antes de acusar sua própria Igreja na qual foi batizado: leia e reflita:


“...a Igreja Católica é radicalmente contra o aborto, no entanto acolhe inúmeras mulheres que abortaram. A Igreja é contra a promiscuidade, mas 75% dos portadores de HIV estão sob os cuidados da Igreja. A Igreja é contra a destruição das famílias, mas é na porta de inúmeras Igrejas, Conventos, Mosteiros que bebês são entregues para serem cuidados, bebês que, na maioria das vezes, são frutos das mesmas relações que a Igreja condena. A Igreja é contra o uso e a legalização das drogas, mas é em inúmeros centros de reabilitação de dependentes químicos espalhados pelo mundo que ela acolhe usuários de droga. A Igreja é contra o vilipêndio da dignidade humana, mas está presente em inúmeros presídios ouvindo, trabalhando, rezando, convertendo aqueles que atentaram contra a vida humana. Vocês não querem nossa tolerância, pois isso sempre tiveram, vocês querem o nosso silêncio, e isso jamais terão” (Dom Luis Henrique)



Faz muito bem afirmar que a Igreja continua e possui um organismo que se destaca em todo o mundo, coordenado por organismos eclesiais internos que chamamos de “CÁRITAS INTERNACIONAL” assim como outras organizações cristãs católicas que ajudam comunidades e países subdesenvolvidos, pobres e carentes de tudo. Essas organizações se fazem presentes em todos os países do mundo e desenvolvem um lindo e frutuoso trabalho, seja na área da saúde, da educação, da assistência social, embora e muitas vezes, quando possível, fazendo parceria com organizações governamentais.



Pergunta-se: Volta-se a perguntar: Quais os pilares de onde deriva o ensino da Igreja quanto à Doutrina Social da Igreja? São quatro colunas básicas:

1. As Escrituras Sagradas

2. A Tradição da Igreja: ensinamentos de teólogos e doutores da Igreja, decisões de Concílios e Papas e as testemunhas de santos.

3. A experiência da Igreja e seus membros na história entre diversos povos e culturas e sistemas sociais

4. Também de ensinamentos de pensadores leigos cristãos e não cristãos. (ibidem p.57).


A Sagrada Escritura nos traz muitos ensinamentos para o mundo de hoje, não no sentido fundamentalista e sim, com base no Decálogo do AT. e no Sermão da Montanha que são as bem-aventuranças. O primeiro mandamento do Decálogo nos coloca com clareza e objetividade a nossa tarefa como cristãos: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.



Este é o mandamento é que sintetiza todo o serviço da Justiça, da caridade e do amor ao próximo [...] é a ideia central da espiritualidade de todos cristãos autênticos, verazes e tementes a Deus. Não é apenas a formalidade do culto, e, sim, e principalmente, a praticidade do mandamento do amor. É preciso colocar sentido que:

“...a Igreja é intolerante nos princípios porque CRÊ; é tolerante na prática porque AMA. Os inimigos da Igreja são tolerantes nos princípios porque NÃO CREEM e são intolerantes na prática porque NÃO AMAM” (Garrigou-Lagrange).



Finalmente cito um grande bispo da Igreja quando afirma:

“...Não existem muitas pessoas que odeiam a Igreja Católica. No entanto, há milhões de pessoas que odeiam o que erroneamente creem que a Igreja Católica seja”. (Dom Fulton John Sheen). É bom pensar! (continua).

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