AS CONTRADIÇÕES DO ATUAL PARADIGMA CULTURAL CONTEMPORÂNEO E SUAS CONSEQUÊNCIAS AO BEM ESTAR DE TODOS


O ser humano ao longo de sua história sempre sonhou, lutou com determinação para tornar a vida menos dura e com maior conforto possível. Afinal, o homem e a mulher, deve ficar bem claro, criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27) receberam do Criador a razão, assim como a liberdade de agir. Por outro lado, foi acrescentado um incentivo explícito com base em (Gn 1,28ss) para aperfeiçoar a obra da criação bem como torná-la sempre mais bela para viver com alegria, com sentido e se realizar.


O curioso no hoje da história é que se vivem situações paradoxais e preocupantes pelo rumo que a sociedade está se dirigindo. Certamente urge para todos nós um profundo exame de consciência em relação à vida da atual conjuntura político socioeconômico local e/ou mundial. Por isso é importante uma parada ante essa frenética corrida em direção a um progresso, muitas vezes, sem critérios de limites e desvinculado de sentido. Talvez é momento para refletir essa situação a partir do primeiro capítulo da Encíclica de Francisco, “Fratelli Tutti”, o qual nos desafia a uma revisão, reflexão crítica em relação a este momento atual para quem sabe para um novo começo baseado em valores como a justiça, a solidariedade de uns para com os outros.



Diz Francisco:


“...entrego esta Encíclica Social como humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, [que] sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras”, [...] de tal maneira que a reflexão se abra ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade”. (FRANCISCO, papa – Carta Encíclica “Fratelli Tutti” – Sobre a Fraternidade e a amizade Social – Ed/Paulus, 2020 n.6).


Por outro lado, Francisco aponta com muita propriedade a inesperada pandemia da Covi-19, aliás, que nos surpreendeu a todos, quando ele afirma: “...deixou a descoberto as nossas falsas seguranças [...] ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto”. (FT, n.7). Ora, diante deste episódio pandêmico nos deixou uma lição bem explícita a ser aprendida por todos, ou seja, “...ninguém pode enfrentar a vida isoladamente [...] precisamos de um comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente”. Daí a conclusão a que se chega, segundo Francisco, “...precisamos sonhar juntos [...] cada qual com a riqueza de sua fé ou das suas convicções”. (n.8).

Curiosamente tinha-se a impressão de que o mundo tivesse aprendido com o horror das guerras e os fracassos que ao longo dos anos a sociedade viveu com muita dor, sofrimento, fome, miséria, injustiças e etc, no entanto, diz Francisco, “...a história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrônicos que se considerava superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos”. (ibidem FT, n.11).



Se por um lado, houve um avanço tecnológico fascinante, e, por outro, continua um desenvolvimento cada vez mais de maneira brilhante, por outro, é perceptível “novas formas de egoísmo e de perda de sentido social mascarados por uma suposta defesa dos interesses nacionais”. Ora, caro leitor! É preciso ter presente e consciência de que se necessita mais do que nunca buscar e perseguir formas bem mais edificantes e nobres para se viver em sociedade seja local e/ou mundial para que assim todo o gênero humano independente de raça, cor, religião ou cultura possa usufruir e se beneficiar com as benesses da tecnologia de ponta, mas para todos os seres humanos.




Afinal o que está em jogo nesse momento histórico é a vida do próprio gênero humano e do cosmo em sua totalidade. Portanto, o caminho a se perseguir sempre deverá ser o bem, a justiça e a solidariedade, de acordo com a Encíclica Fratelli Tutti esse é o único caminho que pode estar presente no imaginário de uma sociedade que vá favorecer a todos indistintamente, embora isso seja uma conquista que se efetue no dia a dia.



UM CONCEITO DE ECONOMIA QUE URGE SER SUPERADO

É bom frisar que a economia não tem fim em si mesma, mas deve sempre estar a serviço do ser humano. Entretanto não é isso que sociedade atual tem percebido, pois cada vez mais vem sendo vítima da economia global, aliás, que além de não ter limite em sua ação subjugando o tecido social a uma forma de uma nova e sutil escravidão e total dependência, em que muitas vezes, as próprias pessoas nem tem a suficiente consciência e percepção de que são vítimas deste processo.



Ora, essa mesma economia sem o menor escrúpulo invade nações e dita as regras, é claro, sempre em favor de uma elite financeira que possui o controle de tudo através da tecnologia de ponta, especialmente através dos meios de comunicação, redes sociais, subjugando a todos em consonância com seus interesses.


O curioso disso tudo é que crescem as atitudes fechadas e intolerantes que, em face dos outros, nos fecham em nós mesmos e através da comunicação de massa, se por um lado, reduziram-se as distâncias, por outro, se invade o espaço da intimidade das pessoas esvaindo-se assim o respeito pelo outro, mas que ao mesmo tempo, ignora-se o outro se o mesmo não é de minha ideologia, do meu partido e do meu interesse.



Diante disso é preciso da parte das pessoas, especialmente as novas gerações serem preparadas para o engodo desse imaginário econômico que aí está não para agregar e formar um povo unido e promovendo a justiça social, mas sim, para sedimentar os interesses dos mesmos custe o que custar. Portanto, é preciso uma maior consciência crítica frente a este paradigma cruel e desumanizante.



Por quê?


De acordo com a Encíclica Fratelli Tutti, n.43, “...os movimentos de ódio e de destruição, por sua vez, não constituem uma forma de mútua ajuda, mas meras associações contra um inimigo”.



E segue o pensamento dizendo:


“...os meios de comunicação [digitais] podem expor ao risco de dependência, isolamento e perda progressiva de contato com a realidade concreta, dificultando o desenvolvimento de relações interpessoais autênticas”. (op cit Christus Vivit, n.88 in Fratelli Tutti).



“...os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único. Essa cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações” E aqui a Fratelli Tutti cita a Encíclica Caritas in Veritate de Bento XVI, quando afirma: “a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos”.(CV n.19) [...] Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado que privilegia os interesses individuais e fragiliza a dimensão comunitária da existência”. (ibidem FT, n.12). Daí que fica bem claro que a simples conexão digital não é suficiente para construir pontes, como não é capaz de unir a humanidade.



Partindo de tais pressupostos é possível chegar a um resultado preocupante e de certa forma trágico, pois se trata de um desenvolvimento pensado, pesado e medido na direção de um “descontrucionismo” onde isso significa que a liberdade humana tem pretensão de construir tudo a partir de hoje do “zero”. E o ponto mais crítico que se deve perceber na subjacência disso é que fica apenas o seguinte: “...a necessidade de consumir sem limites e a acentuação de muitas formas de individualismo sem conteúdo”.




AS NOVAS FORMAS DE COLONIZAÇÃO CULTURAL QUE SUTILMENTE PENETRARAM NO TECIDO SOCIAL CONTEMPORÂNEO



Ignorar a história do passado? Em vista de que? O que subjaz a essa tentativa de passar uma tinta preta para apagar uma construção de milênios? O papa Francisco na Exortação Apostólica CHISTUS VIVIT= Cristo vive, para os jovens e para todo o povo de Deus n.181, nos alerta: “...pensem nisso: se uma pessoa lhes faz uma proposta e lhes diz para ignorar a história, para não recolher a experiência dos idosos, para desprezar todo o passado e só olhar para o futuro que ela lhes oferece, não é uma maneira fácil de pegá-los com a sua proposta para que só façam o que lhes diz? Essa pessoa os quer vazios, desenraizados, desconfiados de tudo, de modo que só confiem em suas promessas e se submetam aos seus planos. Assim funcionam as ideologias de diferentes cores, que destroem (ou descontroem) tudo o que é diferente e, dessa maneira, podem reinar sem oposições. Para isso, precisam de jovens que desprezem a história, que rejeitem a riqueza espiritual e humana que foi transmitida através das gerações, que ignorem tudo o que os precedeu”. (FRANCISCO, papa Exortação Apostólica pós-sinodal Christus Vivit Ed/Paulus – 2019 n.181 p.73-74).


É importante tomar consciência do que está nessa visão de progresso e desenvolvimento retilíneo e focado no ter. E qual é o paradigma que norteia o pensamento destas pessoas envolvidas nesta ideologia. Afinal, crescer, desenvolver e avançar, em princípio, tudo está correto e dentro daquilo que Deus espera daquele que Ele criou à sua imagem e semelhança, no entanto, e, por outro, isso não significa a autossuficiência absoluta diante dos bens, entretanto, deve ser algo onde todos tenham participação como fomentado e promovido a justiça social, a solidariedade e desenvolvimento integral do ser humano.



A verdade é que necessitamos de projetos de crescimento em tudo e para todos. A Encíclica Fratelli Tutti frisa com muita propriedade que “...há regras econômicas que foram eficazes para o progresso, mas não para o desenvolvimento humano integral”. (cf.op cit Populorum Progressio de Paulo VI n.14 in Fratelli Tutti). E Francisco acrescenta: “...quando dizem que o mundo moderno reduziu a pobreza, fazem-no medindo-a com critérios de outros tempos, não comparáveis à realidade atual, [pois] a pobreza sempre se analisa e se compreende no contexto das possibilidades reais de um momento histórico” (ibidem FT. n.21).


Finalizando essa reflexão deve-se frisar que o homem contemporâneo não pode deixar suas raízes históricas para se lançar num futuro sem uma fundamentação real e com os pés no chão. É preciso caminhar juntos para juntos construirmos um mundo para a inclusão de todos.



Por quê?


“...aumentam os mercados, nos quais as pessoas desempenham funções de consumidores ou de espectadores. O avanço do globalismo favorece normalmente a identidade dos mais fortes que protegem a si mesmos; por outro lado, o mesmo avanço procura dissolver as identidades das regiões mais frágeis e pobres, tornando-as mais vulneráveis e dependentes. Dessa forma, a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes econômicos transnacionais, que aplicam o lema “divide e reinarás”. (ibidem FT,n.12).



Até quando? É bom pensar!

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