A ENCÍCLICA “LAUDATO SI’” SEGUNDO A VISÃO DE MICHAEL LÖWY


Chama a atenção ao ler a análise de Michael, em relação à Carta Encíclica “Laudato Si’” do Papa Francisco abordado por um pensador cuja convicção ideológica possui um pensamento que nem tudo sintoniza com os princípios cristãos, mormente da Igreja Católica. Porém, para os católicos cujo posicionamento é de extrema resistência ao trabalho de Francisco expressado em uma das suas publicações, em especial a Laudato SI’ faz sentido observar e ouvir o diferente.

Quando se vive numa sociedade de concepções de mundo plural, sempre é sensato e respeitoso ter a capacidade e a humildade de ler e ouvir o diferente, ou seja, outros que fazem uma avaliação positiva. Quantos membros dentro da Igreja deixam o bonde da história passar petrificando-se em paradigmas que não mais favoreçam à busca do diálogo como responder a uma sociedade sedenta da “Verdade”. Vejo com simpatia a análise de Michael sobre a Carta Encíclica de Francisco.

Michael neste artigo em que fala sobre a Encíclica aborda com muita propriedade e respeito o seguinte: “...a Encíclica Ecológica do Papa Francisco é um evento de uma importância planetária, do ponto de vista religioso, ético, social e político”. E segue:

“...ela é uma contribuição crucial para o desenvolvimento de uma consciência ecológica crítica: Recebida com entusiasmo pelos verdadeiros defensores do meio-ambiente, [pois] ela suscitou inquietude e rejeição por parte de religiosos conservadores, de representantes do capital e dos ideólogos da “ecologia do mercado”.


Partindo dessa observação deste pensador deve nos fazer refletir criticamente, dado a visão estreita dos donos do capital que olham exclusivamente para os lucros e pouco se importam com o “todo” da vida, seja da natureza humana como do meio ambiente. Michael afirma com todas as palavras que esse Documento trata: “....de uma grande riqueza e complexidade que propõe uma nova interpretação da tradição Judaico-cristã – em ruptura com o “sonho prometeico de dominação do mundo” e, uma reflexão profundamente radical sobre as causas da crise ecológica””.

Por outro lado, Michael destaca as diversas resistências dos pensamentos engessados do “econômico e midiático”, dado o caráter antissistêmico da Encíclica. E nisso fica patente o discurso de Francisco quando afirma: “...os desastres ecológicos e a mudança climática não são unicamente o resultado dos comportamentos individuais [...] mas sim, dos “modelos atuais de produção e consumo””.


Michael continua a insistir, em seu artigo, a sua visão sobre a figura do Papa Francisco:

1. Bergoglio não é marxista, e a palavra “capitalismo” não aparece [nenhuma] vez na Encíclica.

2. Para Francisco, os dramáticos problemas ecológicos de nossa época [é]resultado das engrenagens da atual economia globalizada e engrenagens constituídas por um sistema global, um sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perversos.

A partir dessa perversidade é de se perguntar quais as características de estruturas perversas segundo Bergoglio?


1. Um sistema no qual predominam “os limitados interesses de empresas”.

2. Uma discutível racionalidade econômica.

3. Uma racionalidade instrumental cuja finalidade é a maximização do lucro, aliás, que tende a isolar-se de todas as outras considerações.

4. É uma distorção conceitual de economia

5. [Pois] Desde que aumente a produção pouco interessa que isso se consiga a custa de recursos futuros ou da saúde do meio ambiente.

Em contrapartida, Francisco frisa que esta distorção é: “...uma perversidade ética e social, não é mais própria a um país do que outro, mas, e sobretudo, é um sistema mundial atual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente. Desta forma, segundo Michael, “...se manifesta como estão intimamente ligadas à degradação ambiental e a degradação humana e ética.

É IMPENSÁVEL UM CRESCIMENTO ECONÔMICO RETILÍNIO E INFINITO


Diante da atual crise da sociedade é sempre sensato parar e refletir que na temporalidade, nada é infinito, absoluto e verdade última da existência humana. Então é bom frisar que a finitude histórica sempre tem seu limite. No entanto, o que se percebe no contexto do sistema político socioeconômico do mundo atual é que, de acordo com o pensamento de Francisco, deve-se ter em conta alguns elementos que urge de uma crítica sistemática, a saber:

1. A obsessão de um crescimento sem limite, [daí segue] o consumismo, a tecnocracia, a dominação absoluta das finanças e deificação do mercado que caracteriza a perversão do mercado.

2. [Assim se configura] a lógica destrutiva, pois tudo se reduz ao mercado e ao cálculo financeiro de custos e benefícios. Michael é categórico quando chama o leitor a ver que: “...é preciso compreender que o ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender ou promover adequadamente.

3. O mercado é incapaz de tomar em consideração os valores qualitativos, éticos, sociais humanos ou naturais, isto é, “valores que excedem todo e qualquer cálculo”.

Partindo desse pressuposto colocado em seu texto ao analisar a Encíclica de Francisco, deixa entrever que esse sistema econômico vigente está mais que superado. Em contrapartida mostra claramente que é necessário reinventar um novo sistema econômico mais sustentável e inclusivo, mas, especialmente voltado para uma concepção antropológica e cósmica que promova o bem comum e a justiça. “...o poder “absoluto” do capital financeiro é um aspecto do sistema como mostrou a recente crise bancária”.

E nisto a Carta Encíclica de Francisco é radical e desmistificadora. Por quê?

1. [toma-se medidas drásticas] para a salvação dos bancos a todo custo fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro.

2. [Como] reafirmar um domínio absoluto das finanças que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois duma longa, custosa e aparente cura.

3. A crise financeira dos anos 2007 e 2008 era ocasião para o desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da atividade financeira especulativa e da riqueza virtual

4. No entanto, não houve uma reação que fizesse repensar os critérios obsoletos que continua a governar o mundo.


O fato é que, segundo Michael “...esta dinâmica perversa do sistema global que “continua a governar o mundo” é a razão que conduziu as Reuniões das Cúpulas Mundiais sobre o meio ambiente, pois há infelizmente na subjacência, interesses particulares e com muita facilidade, o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum como manipular a informação para não ver afetados os seus projetos.

Infelizmente, e, de acordo com Michael “...desde que os imperativos dos grupos econômicos poderosos predominem “poder-se-á esperar apenas algumas proclamações superficiais, ações filantrópicas isoladas e ainda esforços para mostrar sensibilidade para com o meio ambiente, enquanto, na realidade, qualquer tentativa das organizações sociais para alterar as coisas será vista como um distúrbio provocado por sonhadores econômicos como um obstáculo a superar”.


Quem sabe nessa crise Pandêmica do “Corona Vírus” haja um despertar de uma consciência global, principalmente dos donos do capital para buscar alternativas de uma economia sustentável, e promotora do bem estar de todo o Planeta. Ironicamente, estou ainda para ver! É bom pensar!

(continua no próximo artigo)

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